Belo Horizonte, 19/04/2019

Séries necessárias

por Redação | publicado em sexta, 22 de março de 2019



POR Alice Khouri

Irresistíveis e sensíveis abordagens sobre doenças psiquiátricas


Necessárias, porque precisamos falar sobre: 14% da população mundial sofre de transtornos mentais ou neurológicos, e 75% dessas pessoas não têm acesso ao tratamento devido. Precisamos desestigmatizar (com o perdão do neologismo) as doenças psiquiátricas, desmitificar o que dói a mente e a alma. Assim como todas as outras doenças que atingem o ser humano, há especialidade médica dedicada ao estudo e tratamento delas, não havendo nada de “sobrenatural” que justifique nosso receio de falar sobre o assunto. A pergunta é: dá para gerar bom entretenimento sem exagerar ou reforçar os falsos (e inúteis) estereótipos? Claro que dá, e a coluna desta edição prova isso.
Assim como o câncer, doenças cardíacas ou micoses e afins, as doenças psiquiátricas são péssimas e dolorosas. A diferença é que elas ainda ocupam um lugar diferente no nosso imaginário, equivocadamente ligado ao subjetivismo, dado, muitas vezes, à ausência de sintomas físicos (perceptíveis aos olhos da maioria). A ignorância nos leva a abordar o tema de maneira superficial e equivocada, razão pela qual considero esta a coluna mais importante que já escrevi. É uma tentativa, ainda que microscópica, de chamar a atenção para um tema que não deveria ter tabus – não em pleno século XXI e com uma medicina tão evoluída.
São várias (muitas mesmo) as séries com a temática aqui eleita, mas optei por selecionar aquelas que abordaram o tema de maneira sensível, educativa e muito viciante, proporcionando um entretenimento de qualidade.

You (***) é a série do momento. Aborda o tema e, por isso, está aqui na coluna. Baseada em um best seller, o protagonista é Joe, um gato, charmoso e superinteressante gerente de uma livraria de NY que... é um stalker! Sua história obscura e infância são reveladas ao longo da série e, de certa forma, explicam o porquê de sua mania (ou doença?) de perseguir pessoas, mas o foco é mesmo a sua relação com Guinevere Beck, uma musa, com diversas questões internas mal resolvidas e aspirante a escritora. Algo que começa com uma amizade, passa à paixão e logo evolui para uma obsessão doentia, perigosa e cheia de reviravoltas. Ansiedade, depressão e transtorno bipolar são algumas questões abordadas na vida dos personagens e que poderiam ser melhor tratadas na série, mas contribuem significativamente para a evolução da trama e escolhas decisivas que os personagens fazem – basta ter um olhar sensível para perceber.

Case (****) é uma série finlandesa, com apenas nove episódios que narram uma investigação que se inicia a partir da morte de uma jovem bailarina, encontrada enforcada no palco do teatro, em algo que é um aparente suicídio. Pouco posso dizer aqui para não dar spoiler, mas a questão é que todos os personagens envolvidos têm algo a esconder e contribuem para o desenrolar da trama. É necessário prestar atenção em cada diálogo e evolução dos personagens, pois tudo é meticulosamente articulado. A alta sociedade finlandesa, a hipocrisia das relações sociais, a escola, a cobrança em ser perfeita, o abuso de drogas, tudo isso é combinado e representa um papel importante nos personagens, contribuindo para o agravamento do quadro de variadas doenças psiquiátricas. Destaque para os abusos psicológico e sexual como agravantes da ansiedade e depressão.

Atypical (****) é uma encantadora produção norte-americana de duas temporadas (a terceira, felizmente, já foi confirmada), que aborda o autismo de uma maneira leve, divertida, doce e, ainda assim, muito educativa. O protagonista Sam Gardner é um adolescente diagnosticado com o espectro do autismo, e a série relata a sua relação com a escola, os pais e a irmã. O primeiro amor, o primeiro emprego, a evolução na terapia, decepções familiares e os desafios da interação social, tudo isso aliado às dificuldades comportamentais típicas do autismo, vão construindo a história de Sam; e nos rendem bons episódios. Classificada como comédia familiar, a série é absolutamente deliciosa de assistir e vale muito a pena.

American Crime Story – o assassinato de Gianni Versace (****) é a terceira história baseada em fatos reais de uma produção norte-americana já comentada em edições anteriores desta coluna. A atuação dos personagens é excelente (destaque para Penelope Cruz, que interpreta Donatella Versace; e Darren Criss, como Andrew Cunanan), e o roteiro foi muito bem delineado para reproduzir os eventos que desencadearam o assassinato do famoso estilista G. Versace em 1997, gênio da moda que era homossexual em uma época ainda muito impregnada de homofobia. O foco não é o estilista, apesar do título, e sim o seu assassino: Andrew Cunanan, um intrigante rapaz norte-americano que teve breve relação com o estilista, mas foi também autor de outros crimes terríveis, todos retratados na série. O que achei mais interessante é a evolução do quadro doentio (ou sociopata, tenho dúvidas) de Andrew, que somente é explicado de fato nos últimos episódios, com um resgate à sua infância e adolescência, com destaque para os seus pais.


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