Belo Horizonte, 28/01/2020

Desesperanças estreladas

por Redação | publicado em terça, 10 de dezembro de 2019



Por Fernanda Martins

Foto: Elmo Gomes

Fazia tempo que o sol não demorava tanto para chegar. A madrugada daquele domingo (8 de dezembro de 2019) parecia mais longa do que as normais. A gestação de quase 39 semanas (nove meses e alguns dias) já motiva idas constantes ao banheiro, mas, naquela madrugada, tudo era muito diferente.

O coração palpitava no mesmo ritmo de uma enxaqueca incontrolável. Era ansiedade. O Cruzeiro, dentro do estádio que me rendeu tantos sorrisos, partiria para uma batalha histórica: a tentativa insana de permanência na Série A do Campeonato Brasileiro.

As semanas anteriores queriam me preparar para o pior. Mas optei pela fé incondicional. Acreditei que teria um time correndo desesperadamente dentro de campo, com jogadas épicas de carrinhos e que Fábio (mais uma vez) nos salvaria lá trás. Tudo estava tão bem planejado na minha cabeça que o meu sorriso de canto era baseado em fé.

O fim de gravidez trouxe também o veto para as arquibancadas. Muito a contra gosto, aceitei o condicionante de ficar em casa e acompanhar aquela batalha pela TV – doce ilusão do meu companheiro, da minha médica e dos meus amigos que aquilo significaria baixa de emoção.

Confesso que, quando o árbitro iniciou a partida, aquela esperança inicial seguia tão firme dentro de mim que transportei meu coração para junto dos meus dois companheiros de Mineirão. Na barriga, meu Ruan estava mais tranquilo do que em outros jogos, até julguei que aquilo poderia ser um sinal.

Com a bola em jogo, abaixei os olhos, coloquei a mão na barriga e entrei num processo interno de fé. Foi uma oração silenciosa de súplica e a tentativa de conduzir toda a minha esperança para as quatro linhas daquele campo. Eu acreditava naqueles caras. Pensei que a punição da bola, talvez, não chegaria. Iríamos aprender com aquilo tudo. Não daríamos título de ídolo a quem não merecia o peso da nossa camisa e não acreditaríamos em diretoria omissa. Era uma promessa. Aos deuses do futebol, prometi que nós, torcedores, aprendemos a lição. Além disso, meu filho – que ganhou nome inspirado na raça de Juan Pablo Sorín – não merecia nascer no mesmo ano que conheceríamos a Série B. Eu, Léo (meu marido), Wallace (nosso amigo), Maria, Fernando, dona Salomé e nenhum outro torcedor merecia aquele sofrimento.

Contudo, meus caros leitores, a bola cobrou toda a irresponsabilidade e a nossa omissão – sim, fomos omissos. Eu fui omissa. Quantas vezes falei que não queria saber da situação financeira do clube? Quantas vezes amenizei os salários astronômicos? E quantas vezes dei nome de mito para gente que não merecia nem pisar dentro do meu clube? A bola cobrou, e foi muito mais doloroso do que eu imaginava.

O gol do Botafogo veio como um respiro (caso o Ceará perdesse, íamos depender apenas de nós) e chorei. Chorei, sorri e agradeci. Os jogadores não entraram com carrinhos épicos, não tinham a raça de Sorín em campo e, tampouco, os olhos daqueles caras mostravam a vontade que sonhei.

Ai, Cruzeiro! Eu não imaginei que ia doer tanto aquele primeiro gol tomado. As lágrimas vieram de maneira incontrolável. Os meus gritos de raiva eram amostra de uma dor que cortava o meu peito. Abracei minha barriga numa tentativa instintiva de proteger meu Ruan, mas ele começou a mexer. Sentiu aquela dor que cortava o meu peito. Ele sabia que eu e o pai dele estávamos no chão.

Juro que tentei conter tudo aquilo e racionalizar as minhas quase 39 semanas de gestação. Filho, eu não queria te passar tanta tristeza. Eu queria desligar a TV, levantar do sofá e voltar para o mundo ideal da maternidade. Não consegui. Os olhos inchados e a dor na alma trouxeram reflexos físicos. Tonteira, dor de cabeça e o embaçar dos olhos trouxeram um aumento instantâneo na pressão arterial. Corrida para maternidade, Léo preso no Mineirão depois de opressão da Polícia Militar de Minas Gerais e medo.

Ruan é mais forte do que os pais. Seguiu firme na toquinha da mamãe e parece que não se importará em enfrentar trânsito no bebê conforto para um jogo de terça-feira, às 19h15. Menino cheio de raça como a inspiração de quem lhe cedeu o nome. Hoje, estou aqui pegando os cacos devagar, cuidando das feridas físicas do meu companheiro causadas por truculência policial e triste com a notícia do falecimento de Salomé. No alto de seus 86 anos, o coração da nossa mais ilustre torcedora enfraqueceu diante de tanto descaso.

A dor ainda vai demorar a passar, mas o Cruzeiro é grandioso. Não queimei camisa, não pensei em ser menos apaixonada e não passou pela minha cabeça deixar as arquibancadas. O Cruzeiro é grande e vamos preparar o lombo para carregar o nosso clube ao lugar de glórias, que ele nunca deveria ter saído.


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