Belo Horizonte, 20/01/2021

Novembro Azul: quando o preconceito impede a prevenção e cura

por Redação | publicado em terça, 24 de novembro de 2020



*Maria Auxiliadora Sabino Viana – psiquiatra da Clínica Mangabeiras

Criada na Austrália em 2003, a campanha Novembro Azul volta à cena neste mês com posts nas redes sociais, exibição de vídeos em salas de cinema, outdoors, faixas e inúmeras outras ações que possam alertar para a importância do autocuidado masculino com a saúde. O movimento, que ganhou a adesão do Brasil e outros países, é uma forma de mostrar ao homem não só a relevância do diagnóstico precoce do câncer de próstata, mas também de incentivá-lo a olhar mais para a sua saúde e fazer exames que possam prevenir uma série de outras doenças. As mulheres culturalmente têm mais zelo, procuram mais os médicos, fazem seus exames, sejam de rotina ou de prevenção, mas grande parte dos homens só vai ao médico quando não se sente bem. Conscientizar as pessoas do sexo masculino de que é preciso fazer um check-up, infelizmente, ainda é fundamental em nossa sociedade.

Neste ano, o Brasil completa quase duas décadas de Novembros Azuis ininterruptos, mas os números sobre o câncer de próstata servem como exemplo de que muito ainda é preciso ser feito para convencer os homens da importância do zelo com a saúde. Dados do Instituto Nacional do Câncer indicam que de 2020 a 2022 serão diagnosticados no Brasil 197.520 novos casos deste tipo de tumor — ou seja, 65.840 a cada ano. Valor que corresponde a um risco estimado de 62,95 casos por 100 mil habitantes.

O número de mortes também assusta. O tumor de próstata é a segunda principal causa de óbitos por câncer em homens, atrás do câncer de pulmão. A cada 41 homens, pelo menos um morrerá de câncer de próstata, conforme dados do Inca. Cuidados como a adoção de alimentação saudável, prática de exercícios e de uma vida livre de tabagismo são fatores que podem reduzir os riscos de cânceres. Mas, a partir dos 40 anos, os exames de próstata, que englobam avaliação do risco pelo urologista, seguida pelo toque retal e a dosagem de PSA, são imprescindíveis para a prevenção, pois quanto mais cedo é o diagnóstico do tumor, maiores as chances de tratamento e cura.

Na maioria dos casos, no Brasil, essa avaliação do risco de câncer de próstata começa aos 50 anos. No entanto, estudo aponta que mais de 60% dos homens brasileiros acima dos 50 não vai ao urologista. Na rede privada de saúde, cerca de 90% dos homens desta faixa etária fizeram o PSA e apenas 65% se submeteram ao exame de toque retal. Entre os pacientes masculinos com mais de 50 anos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 45% nunca foram submetidos ao toque retal e 16% não fizeram o exame de PSA. Durante as campanhas do Novembro Azul, a adesão dos homens ao procedimento é maior, uma vez que entidades de saúde se mobilizam para oferta de exames de próstata gratuitos, já que nem sempre é fácil marcar uma consulta na rede pública, o que pode colaborar para dificultar a prevenção.

A cultura machista presente em nossa sociedade também é apontada como um dos inimigos para a prevenção e diagnóstico do câncer de próstata. Grande parte dos homens adia a ida ao urologista devido ao preconceito em se submeter ao exame de toque retal. Como mostra pesquisa citada acima, a adesão é maior ao exame de sangue, o PSA. No entanto, os dois testes são necessários para a identificação de algum nódulo suspeito e devem ser feitos uma vez por ano.

Pesquisas apontam que 80% dos homens só vão ao médico influenciados pelas mulheres, levando as campanhas de prevenção a orientá-las, todos os anos a convencerem os companheiros sobre a importância de irem ao urologista.

O combate aos tabus que impedem a prevenção e tratamento de doenças em toda a sociedade deve começar nas famílias, pelos adultos, não repassando às crianças a cultura machista. Campanhas educativas também devem ser promovidas pelo poder público a fim de ensinar a crianças e jovens a relevância dos cuidados com a saúde sem preconceitos, assim como a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.

Aliás, a falta de procura por profissionais de saúde não é uma prerrogativa dos urologistas. Muitas vezes a psiquiatria é alvo de preconceitos em razão da falta de informação da sociedade, vergonha, principalmente em relação à depressão. É comum, por exemplo, muitos homens e algumas mulheres buscarem saída contra a ansiedade ou o estresse ingerindo bebidas alcoólicas ou usando qualquer outra droga, em vez de procurar um especialista. Um dos motivos desta aversão ao psiquiatra estaria ligado ao preconceito, à cultura, ao medo da loucura pelas pessoas e a maneira como os portadores de transtornos mentais eram tratados no passado, isolados nos manicômios. Portanto, é preciso ainda muito combate ao preconceito aos tratamentos para vencermos as doenças.


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