Belo Horizonte, 12/12/2019

Prevenção em dia ainda é a melhor forma de lutar contra o câncer de mama

por Redação | publicado em quarta, 30 de outubro de 2019



Mulheres do grupo de risco para as Síndromes Hereditárias de Predisposição ao Câncer podem realizar exame genético para confirmar a mutação antes do desenvolvimento do tumor

Com inúmeros parentes vítimas de câncer, a empresária e paisagista Anadete José da Costa Assis, 63 anos, manteve o rastreamento do câncer de mama sempre em dia com autoexame, consultas clínicas e exames preventivos. “Sou filha de pais primos de primeiro grau e em ambos os lados houve muita incidência de câncer de mama. Todas as mulheres diagnosticadas com a doença, infelizmente faleceram.”, ela conta.

Em 2017, com 61 anos, ao fazer o check-up foi constatado um nódulo maligno na mama direita. “Tive que passar por todos os procedimentos cirúrgicos e para minha felicidade e gratidão a Deus, constatou-se que meu câncer era inicial e que não havia metástase no meu linfonodo sentinela.”

Para identificar as características do tumor e fazer um acompanhamento mais adequado, a equipe de atendimento de Anadete realizou um exame genético, com swab bucal (saliva), quando descobriram que, por incrível que pareça, ela não havia herdado o gene que determina a mutação. Tinha desenvolvido a doença por condições ambientais.

“Essa foi uma grande descoberta”, destaca o oncologista, oncogeneticista e diretor Executivo da Personal Oncologia, Dr. André Murad. “Com essa informação, pudemos descartar a necessidade de fazer a retirada das duas mamas e de seus ovários, reduzindo a exposição a cirurgias mais extensas”, acrescenta.

O caso de Anadete chama atenção para três conclusões primordiais: primeiro, que o diagnóstico precoce garante o sucesso do tratamento; segundo, que, mesmo aquelas mulheres que não estão dentro do grupo de risco devem fazer o rastreamento atencioso, pois a doença pode se desenvolver por condições ambientais, comportamentais e hormonais; por último, que as tecnologias de hoje permitem entender melhor as características genéticas dos tumores, possibilitando tratamentos personalizados para cada quadro.

O câncer de mama é o segundo tipo mais incidente no mundo (1,7 milhão) e a primeira causa de morte por câncer, entre as mulheres brasileiras. Em 2015, conforma o Instituto Nacional do Câncer José de Alencar (INCA) ocorreram 15.403 óbitos por câncer de mama, já, em 2016, foram 16.069 mortes. Somente no biênio 2018/2019, são esperados 60 mil casos em mulheres. Os números mostram que, para frear as estatísticas, as mulheres devem estar atentas durante todo o ano, além da campanha de outubro.

Síndromes Genéticas de Predisposição ao Câncer de Mama

Sabe-se que cerca de 15% dos cânceres são determinados por fatores genéticos. No caso das mulheres, essa informação é usada para rastrear a doença no grupo com grande risco para a Síndrome Hereditária de Predisposição ao Câncer. Ou seja, aquelas mulheres em que há casos de câncer de mama na família, especialmente, em parentes de primeiro grau e jovens, a exemplo de Anadete.

Conforme explica Murad, para fazer a prevenção em massa adequada, é necessário entender que existem causas diferentes para o aparecimento do câncer de mama. Há os casos hereditários, explica ele, mas, por outro lado, a mutação também pode surgir devido a fatores hormonais, ambientais e comportamentais.

Fatores de risco para aparecimento do câncer de mama

Ambientais

·Obesidade e sobrepeso principalmente após a menopausa

·Sedentarismo (não fazer exercícios)

·Consumo de bebida alcoólica

·Exposição frequente a radiações ionizantes (Raios-X)

Fatores de risco Hormonais

·Primeira menstruação (menarca) antes de 12 anos;

·Não ter tido filhos;

·Primeira gravidez após os 30 anos;

·Não ter amamentado;

·Menopausa após os 55 anos;

·Ter feito reposição hormonal pós-menopausa, principalmente por mais de cinco anos

Genéticos

·História familiar de câncer de mama e ovário, principalmente em parentes de primeiro grau antes dos 50 anos

·Alteração genética

Prevenção em massa

O principal mecanismo de prevenção da saúde pública é a mamografia de rastreamento para mulheres com idade entre 50 e 69 anos. Contudo, a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama - FEMAMA e a Sociedade Brasileira de Mastologia defendem a realização anual da mamografia em mulheres com idade entre 40 e 69, anos, seguindo a Lei 11.664/2008.

Para Murad, o cuidado deve ir além. Para o grupo de risco, o ideal é confirmar por exames genéticos a existência dos genes que determinam as mutações, como o BRCA1 e o BRCA2. No Rio de Janeiro, esse tipo de exame já está disponível no sistema público, e no restante do pais, no sistema privado.

“A partir da confirmação da presença desse gene, é possível oferecer medidas preventivas e de rastreamento ativo, evitando o aparecimento ou o detectando precocemente, o que aumenta sobremaneira o sucesso do tratamento”, detalha o médico.

Entre as medidas possíveis nesses casos, estão o rastreamento, sendo que, para pacientes com essas duas mutações, o ideal é usar a Ressonância Nuclear Magnética. A administração de medicamentos antes que a doença se manifeste também é uma opção e, por fim, a cirurgia profilática, em que é feita a retirada preventiva das mamas com objetivo de evitar a formação de um tumor. É o caso, por exemplo, da atriz Angelina Jolie, que fez a retirada preventiva das mamas, ovários e trompas de Falópio ao identificar, em exames genéticos, que havia herdado os genes causadores de mutações nesses órgãos. “A indicação só ocorre após analisar todas as condições e quando os ganhos são realmente vantajosos. Quando bem indicada, essas técnicas são extremamente eficientes. E cabe a nós geneticistas explicarmos as suas vantagens e desvantagens.”, avalia.

Inovação também no tratamento do cancêr de mama

O oncogeneticista explica que a ciência avançou tanto em relação aos testes germinativos, que identificam a presença dos genes de mutação, quanto para avaliação do tumor, com exames em que é possível detectar genes para os quais podemos escolher medicação para tratar doença avançada. “Além disso, tem a biópsia líquida, que usamos também para avaliar a resistência a tratamento e definir novos tratamentos.”, acrescenta.


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